"Eram missionários e matámo-los a todos"

   •   9 Agosto, 2010
Notícias

Talibãs reivindicam a morte de oito trabalhadores humanitários estrangeiros.

No momento em que ia ser executado, Saifullah começou a recitar versículos do Alcorão. Foi o que salvou este afegão. Os talibãs perceberam que era muçulmano e libertaram-no no Nuristão. Menos sorte tiveram dois compatriotas e oito trabalhadores humanitários estrangeiros (seis norte-americanos, uma britânica e uma alemã) da organização não-governamental Missão de Assistência Internacional (IAM, na sigla inglesa). Foram mortos a tiro após serem considerados "missionários cristãos".

Os corpos foram encontrados sexta-feira pelas autoridades afegãs em Noor Agha Kentoz, uma região de difícil acesso na província do Badakshan, considerada mais calma do que a do Nuristão. Tinha sido nesta última província, dominada pelos talibãs, que a equipa de médicos, oftalmologistas e enfermeiros passara os últimos dias em mais uma missão. O grupo deslocava-se em vários veículos todo-o-terreno sem qualquer protecção - três deles encontravam-se ao lado dos cadáveres, cheios de balas.

"No último dia, um grupo de homens armados chegou, alinhou-os e abateu-os. Roubaram os seus bens e dinheiro", disse Aqa Noor Kintoz, chefe da polícia do Nuristão, citando o relato de Saifullah. Os talibãs reivindicaram as mortes em vários media internacionais. "Estavam perdidos. Quando a nossa patrulha os encontrou, tentaram fugir. Eram missionários e matámo-los a todos", disse o porta-voz Zabihullah Mujahid. "Tinham bíblias em dari, mapas e sistemas [de localização] GPRS. Estavam a colocar nos mapas as posições dos talibãs", referiu, acusando-os de espionagem.

Um responsável da IAM, que está no país desde 1966 (ver caixa), negou as acusações de proselitismo, lembrando que a organização é cristã mas nunca o escondeu. "Nós não distribuímos bíblias", referiu à BBC o director-executivo, Dirk Frans. Entre as vítimas estrangeiras - quatro homens e três mulheres - duas já foram ontem identificadas: a médica britânica Karen Woo, de 36 anos, e o optometrista Tom Little, de Delmar (Nova Iorque), que era o líder da missão. Os corpos deverão ser repatriados nos próximos dias com o auxílio da embaixada norte-americana.

Apesar de o Islão aceitar as outras religiões do livro (cristianismo e judaísmo), a maioria dos países muçulmanos proíbe o proselitismo - segundo a lei islâmica a conversão pode resultar na pena de morte. Os talibãs, um grupo fundamentalista sunita, perseguiram ferozmente outras minorias religiosas quando estiveram no poder no Afeganistão (1996 a 2001).

Os hindus, por exemplo, eram obrigados a usar um emblema amarelo, de forma a identificá-los como não muçulmanos. Mas o fundamentalismo atingia mesmo alguns muçulmanos, com os hazaras (uma etnia maioritariamente xiita) a serem considerados um alvo. A perseguição contra outras religiões chegou ao ponto da destruição das estátuas dos budas de Bamiyan, consideradas ídolos e por isso ilegais segundo a sharia, apesar de há séculos não existirem budistas no Afeganistão.

Quando os talibãs foram derrubados, após os atentados de 11 de Setembro de 2001, oito trabalhadoras humanitárias da Shelter Now International (quatro alemãs, duas norte-americanas e duas australianas) puderam respirar de alívio. Foram libertadas pelas tropas internacionais a 15 de Novembro após mais de três meses detidas, acusadas de pregar o cristianismo. Em 2007, o destino foi diferente para dois missionários sul-coreanos, que morreram às mãos dos talibãs. Os restantes 21 membros do grupo, que tinham sido sequestrados, foram libertados em troca da saída das tropas da Coreia do Sul.

Fonte: DN GLOBO

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