O fim do ódio

Flauzilino Araújo dos Santos   •   19 fevereiro, 2017
Artigos

Sobre o poder do perdão na perspectiva cristã

Por Flauzilino Araújo dos Santos

“O ódio é o veneno que alguém toma aguardando que o outro morra”. (Anônimo)

Parece-nos impossível passar pela vida sem sofrermos, em algum momento, a tentação de odiar alguém. Mesmo que andemos "pisando em ovos", mesmo que sejamos pragmáticos e prudentes, é impossível viver sem ser ferido e magoado. Na maioria das vezes, não é preciso ir longe, porque a violência e a injustiça parecem andar de mãos dadas com a deslealdade, enchendo de ódio o cálice do ser humano em seu próprio hábitat. O lar, constituído para ser o abrigo de proteção, provisão e crescimento, onde aprendemos a dar e a receber amor, é, frequentemente, a raiz de toda dor. As guerras mais sangrentas são as civis. Os maiores sentimentos de ódio estão entre aqueles que um dia foram próximos ou até dormiram juntos por muitos anos.

Que sentimentos nutre uma mãe que testemunha o sofrimento de sua filha nas mãos de um genro violento e agressivo? Como se processa o sentimento de alguém que foi traído por um sócio desonesto ou enganado por um fornecedor fraudulento? Que perdeu economias ajuntadas por anos e anos de trabalho suado e que viraram fumaça?

Como a vítima vai reagir ao autor de uma crueldade? Há pessoas que foram estupradas, torturadas e que carregam mutilações físicas e psicológicas. Há pessoas que presenciaram assassinatos de membros de sua própria família. De onde buscar forças depois de ter a vida e a carreira arruinadas pela covardia da injúria, da calúnia e da difamação?

Como se forma o sentir de povos e nações que por gerações e gerações são injustiçados, discriminados e rejeitados? A despeito de a Declaração Universal dos Direitos Humanos afirmar que ninguém será submetido a tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes (art. 5º), a realidade é que essas belas palavras, infelizmente, não encontram solo fértil em muitos corações. Obscurantismo, intolerância, dogmas ideológicos, econômicos e religiosos não cochilam em sacrificar contingentes de populações, tidas e havidas de segunda classe ou perdidas, que vivem em perpétua discriminação e são tratadas como o lixo do mundo.

E aqueles que no dilúvio de suas lagrimas noturnas sofrem em silêncio?

E nós? Como podemos comportar-nos seja em relação àqueles que nos feriram ou ferem, seja àqueles que ferem a humanidade diariamente? Qual é a melhor resposta para os nossos algozes?

Bem! No passado, o próprio Direito Penal repousava sobre a Lei de talião, do latim lex talionis (lex, lei, e talio, de talis: tal, idêntico), também dita pena de talião, que consiste na rigorosa reciprocidade do crime e da pena — mais apropriadamente chamada retaliação. Lei das mais antigas, já encontrada no Código de Hamurabi (Babilônia), no Êxodo (Hebreus) e na Lei das XII Tábuas. O próprio Moisés orientou sua gente a ter sempre presente e a observar: “A regra é: vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe” (Êxodo 22:24).

Em contraposição, Jesus de Nazaré, no Sermão da Montanha, proclama um novo código que sedimenta a fé no perdão, como uma virtude humana e cristã, cuja força social dinamiza com eficácia o convívio entre os homens, regenera-nos, liberta-nos definitivamente da vingança do olho por olho e dente por dente.

Nas palavras do próprio Cristo, apresentadas como alternativa à retaliação e traduzidas pelo Evangelho, lemos: “Tendes ouvido que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te dá na face direita, volta-lhe também a outra; ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e quem te obriga a andar mil passos, vai com ele dois mil. Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes” (Mateus 5:38-42).

No Sermão da Planície, depois de anunciar e apregoar o mandamento maior de amor ao próximo como a si mesmo, o Mestre foi bem mais longe. Ele disse: “Digo, porém, a vós que me ouvis: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos insultam. Ao que te bate numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te tira a capa, não lhe negues a túnica. Dá a todo o que te pede; e ao que tira o que é teu, não lho reclames. Assim como quereis que vos façam os homens, assim fazei vós também a eles” (Lucas 6:27-31).

Nosso sistema judicial existe para reparar o dano a quem foi maltratado, e punir o culpado, com penas e indenizações, depois de percorrido o devido processo legal. A finalidade do Direito, como instituição histórica e cultural é pacificar e harmonizar as relações entre os homens, mediante técnicas de solução de conflitos. Prestes a ser julgado, o réu ouve da Justiça a advertência de que "será julgado e pagará se for considerada culpado”.

Por incrível que possa parecer, não é essa a advertência da justiça divina. Primeiro, o próprio Cristo disse que espera de cada um de seus seguidores que entre depressa em acordo com o seu adversário, antes que o caso seja submetido ao tribunal (cf. Mateus 5:25). Se não for possível a conciliação, resta, então, aplicar o preceito de Romanos 12:17-19: "Não revidem. Descubram a beleza que há em todos. Se você a descobriu em você, faça o mesmo com todos. Não insistam na vingança; ela não pertence a vocês. 'Eu vou julgar. Eu vou cuidar disso', diz Deus" (Romanos 12:17-19).

Se você vir seu inimigo com fome, ofereça-lhe um bom almoço; se estiver com sede, dê-lhe de beber. Sua bondade irá surpreendê-lo, ensina-nos as Escrituras.

E agora? Como viveremos? De um lado já sabemos que na Nova Ordem o odiar é o avesso de "vencer o mal com o bem" (cf. Romanos 12:21); de outro, como converter o ódio em bem e em virtude? Como nos livrar das toxinas do ódio? Haveria um antídoto capaz de reverter o efeito deletério desse veneno, de neutralizá-lo? O cumprimento da pena e a indenização paga pelo culpado esvaziaria o ódio de nosso cálice?

Eu conheço a força e a realidade desse cativeiro porque já fui feito refém desse tormento, até que as prisões foram quebradas. Não pelo decurso do tempo, mas por uma decisão, do tipo renúncia. Assim, afirmo: o processo de desintoxicação das emoções deve ter presente que a única base para destruir as cadeias do ódio é o perdão. Mas como perdoar alguém que me tratou com ódio e abuso? Alguém que arruinou a minha vida e me fez um aleijado emocional? Como perdoá-lo a esta altura da vida?

O caminho para o perdão tem seu ponto de partida na reconciliação. Reconciliação primeiramente consigo mesmo e com Deus, não necessariamente com as partes que foram ou são antagonistas. Ela virá depois se houver condições favoráveis para isso. A reconciliação entre pessoas é um subproduto da reconciliação consigo mesmo e com Deus, inseparáveis pela própria natureza delas, porque, embora não se misturem, completam-se.

Nossa história e as circunstâncias que a configuram, quase sempre, não são do jeito que imaginávamos. Nossa biografia é povoada por erros, fragilidades, perdas, contrariedades e frustrações não desejados e nem convidados. Mas superações, vitórias, realizações e produtividade também há. Reconciliar-se consigo mesmo é dizer sim a si mesmo; é assumir tudo o que faz parte da própria história, aceitar-se, compreender-se amado e aceito, ciente de que Deus nunca nos procura onde deveríamos estar, mas onde estamos, tampouco como deveríamos ser, mas como somos.

Reconciliar-se com Deus é entender que fomos justificados mediante a morte do Seu Filho e que não há razão para estarmos em oposição a Ele, sobre qualquer assunto (cf. Romanos 5:9).

Perdoar a ofensores que sequer estão arrependidos, nem pretendem reparar seus erros, não é tarefa fácil. Não exercício mental, exclusivamente humano, portanto. Porém, se concluirmos que gostaríamos de perdoar, esse querer já é suficientemente bastante para acionar a capacidade divina para o perdão. Tomemos emprestado de Deus o que Ele nos dá por Sua graça, a vontade, a decisão e o próprio ato de perdoar. Não é Dele o mandamento? Pois que seja Dele também a natureza mesma desse ato tão sublime.

Talvez não seja necessário sentir o perdão para que perdoemos. Perdoar é obedecer a Deus. O perdão não faz com que a outra pessoa esteja certa; ele faz com que você seja livre!

Prece

Meu Deus, confesso o ódio que tenho de ........... e peço o Teu perdão. Quero perdoá-lo(a) pelo que fez e pelos sofrimentos que me causou. Em Tuas mãos, Senhor, entrego meu espírito e minhas fraquezas. Amém!

Ouça esta mensagem em https://soundcloud.com/telepaz/o-fim-do-dio

Flauzilino Araújo dos Santos

  1. Pr. Guedes disse:

    Excelente texto, Pastor Flauzilino. Muito bom refletir sobre a supremacia do Amor sobre a Lei e sobre as leis. A Lei do Amor e a Lei do Espírito e Vida em Cristo Jesus sobrepuja em muito a história dos códigos de normas e jurisprudências.

    I João 2. 7-11 “Irmãos, não vos escrevo mandamento novo, mas o mandamento antigo, que desde o princípio tivestes. Este mandamento antigo é a palavra que desde o princípio ouvistes. Outra vez vos escrevo um mandamento novo, que é verdadeiro nele e em vós; porque vão passando as trevas, e já a verdadeira luz ilumina. Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo. Mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos”.

    Abraço e a Paz.

  2. Flauzilino Araujo dos Santos disse:

    Obrigado, pastor Guedes. Pela misericórdia do Senhor este texto foi publicado em livro editado em homenagem ao Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, pela Editora Quartier Latin.

  3. Carlos Eduardo Costa Guilherme disse:

    Pastor Flauzilino, agradeço pelo lindo texto que nos faz entender o quanto é importante seguir as leis do nosso Deus e vivermos praticando-às. Isso deve ser o nosso alimento diário. Agradeço a Deus pela sua vida e a capacidade que ele lhe deu para tal. Um grande abraço.

    1. Flauzilino Araújo dos Santos disse:

      Realmente, Pastor Carlos. Esse é um exercício diário.

      Ab.

      Flauzilino

  4. Flauzilino Araújo dos Santos disse:

    Obrigado Pastor Carlos. Este é um exercício diário que temos de fazer.

    Ab.

    Flauzilino

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